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Sección: Arte postal

Nilda Spencer, uma vida dedicada a arte

Viernes 4 de julio de 2008

“Nilda Spencer é uma das personalidades mais marcantes da vida artística da Bahia. Sua presença é criativa, apresenta de forma eficiente e profunda nossa trajetória cultural”. A opinião é do escritor Jorge Amado por ocasião do lançamento do CD “Boca do Inferno”, na qual a atriz recitou alguns dos mais célebres poemas de Gregório de Mattos. No mês passado a embaixatriz do teatro baiano comemorou 85 anos. Nilda começou a se envolver com o teatro na década de 50, quando conheceu o dramaturgo Eros Martim Gonçalves, fundador da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. Desde então, ligou para sempre sua vida ao teatro. Foram dezenas de peças e interpretações marcantes, que se estenderam também ao cinema - Nilda participou de oito longas-metragens, entre eles “Dona Flor e seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto, maior sucesso de público do cinema brasileiro. Atriz, professora, tradutora, colunista. Nilda César Spencer nasceu em Salvador, no bairro do Canela no dia 18 de junho de 1923, em Salvador Estudou na Escola Jesus Maria José, Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e Colégio da Soledade. Era uma aluna aplicada, gostava do ensino de Português, mas o que preferia fazer nos intervalos das aulas era imitar os artistas. Todos os colegas em volta admiravam suas performances. Ela enfrentou a família, nos anos 50, e abandonou a promissora carreira de pianista - com concertos nos Estados Unidos e Venezuela - para virar atriz, uma profissão que, naquela época, não era vista com bons olhos. O conhecimento musical a ajudou no teatro, arte na qual se dedicou, principalmente, à área de dicção e expressão vocal, chegando a ser professora e diretora da Escola de Teatro. Foi a primeira mulher que assumiu a direção de uma Escola de Teatro na Universidade num tempo em que Salvador era uma província e o papel feminino estava reservado nos bastidores da lei, da família. Fazer teatro no Brasil ainda era considerado opção menor para rapazes e moças de boas famílias. Diplomada na primeira turma da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, em 1956, logo após, foi a substituta de Martim Gonçalves, por indicação deste, que só nela confiara o fundador da casa que modificou a cena baiana, com ecos por todo o Brasil. Ao assumir, Nilda quebrava a rotina dos homens em postos de comando e de destaque e impunha um desempenho de mulher – capaz, competente. Determinada, fez pós-graduação em Londres, foi tradutora oficial da escola, ensinou durante 25 anos e nunca deixou os palcos e os sets de gravações e filmagens. Fez centenas de peças, filmes e minisséries para a tevê. O primeiro trabalho foi em 1956 com a peça Auto da Cananéia, de Gil Vicente, com o grupo dramático da Escola de Teatro, A Barca na Igreja de Santa Teresa. Dois anos depois fez a comédia de Arthur Azevedo, Almanjarra. Em seguida o drama realista de August Strindberg, Senhorita Julia, peça da inauguração do Teatro Santo Antônio; As Três Irmãs, drama de Anton Tchecov; A Sapateira Prodigiosa, de Federico Garcia Lorca; Calígula, de Albert Camus, em que Nilda trabalhou ao lado de Sérgio Cardoso; Companhia das Índias, de Nelson de Araújo; Medo, de Robert Frost; A Falecida, de Nelson Rodrigues; Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello, entre muitas outras. Depois que pisou no palco ela não parou mais, viveu e deu vida a muitos personagens. Aprendeu e ensinou muito. No Festival de Poesia no Teatro Santo Antonio, Nilda fez parte daquele clube muito seleto dos atores realmente grandes. No cinema atuou em Dona Flor e seus Dois Maridos; de Bruno Barreto, Tenda dos Milagres, de Nélson Pereira dos Santos; Meteorango Kid, de André Luís Oliveira; Caveira My Friend, de Álvaro Guimarães; O Super-Outro, de André Navarro, Eu Tu e Eles, entre outros. Fez ainda as minisséries da Globo Tenda dos Milagres e O Pagador de Promessas, além da novela Rosa Baiana, da TV Bandeirantes. Quem na Bahia não conhece Nilda? Ela inspirou vários personagens nos livros de Jorge Amado. Basta abrir o livro para conhecer esse personagem, essa figura alegre, solidária e com muita vontade de viver. E na vida, na noite baiana, num acontecimento cultural que movimenta a cidade, lá está Nilda com o bom humor de sempre. Myriam Fraga, num artigo dedicada a grande dama (no sentido mais amplo) dos palcos baianos afirmou que ela “é um exemplo permanente de honestidade profissional e ilimitado amor à sua profissão”. Ela “soube vencer tantas barreiras para construir seu ideal com talento e altivez”. O constante sucesso de Nilda Spencer nos palcos tem uma explicação: “Amo o teatro, nunca deixei de encenar. Mesmo quando não estou nos palcos, faço algo ligado ao teatro”. Além de teatro, produziu show musical como Coração de Tambor, com Wilson Café, Quincas Berro D’Água, com Nilda e Mário Gadelha e, para marcar os 40 anos de carreira, lançou em 1996 o CD Boca do Inferno, homenagem explícita ao poeta baiano do século XVII Gregório de Mattos. O velho sonho de gravar CD interpretando os picantes versos de Gregório de Mattos foi realizado. A versátil Nilda se preparou para mais uma etapa da vida, encenar a peça de Colin Higgins, Ensina-me a Viver, sob a direção de Fernando Guerreiro. A personagem principal procura ensinar as outras a descobrir a felicidade de viver. Uma personagem muita aplaudida foi Zulmira, a suburbana da peça A Falecida de Nélson Rodrigues. Nilda guardou momentos marcantes nesta peça e diz que o sucesso foi devido ao realismo que Nélson passava em seus trabalhos, além de ser muito bem escrita, dando margem a criação do ator. E criar é o que ela mais sabe fazer na vida. Criar momentos mágicos no trabalho que faz, criar felicidade em torno dos amigos. Nilda ministrou aulas de dicção e expressão vocal para muitos artistas, políticos e empresários. Tudo o que ela aprendeu na vida ela repassa para seus alunos, mas o que ela jamais esquece é a força do bem querer que todos os amigos lhe devota. “Poucas pessoas têm a felicidade de realizar um sonho como tive, de fazer o que mais gosto, teatro. Na época enfrentei muitos preconceitos, mas tive a coragem de seguir em frente e meus amigos torceram muito por mim. Só na estréia foi uma aceitação geral onde fui recebida com flores. Conseguir romper a barreira e o domínio total para dizer que teatro é uma coisa boa para toda a comunidade”. Além de teatro que faz por prazer, Nilda se movimenta na cidade, frequenta os lançamentos de livros, discos, exposições de pintura, prestigia os amigos e circula na noite. Ela gosta muito da noite baiana. Foi junto com os amigos Geová de Carvalho, Fred Souza Castro, Afonso Coentro e tantos outros intelectuais da vida baiana que descobriram muitos pontos culturais e roteiros curiosos e interessantes da misteriosa noite da Bahia. Os tempos passaram, alguns amigos se foram, outros estão na ativa e Nilda continua a mostrar felicidade para todos. Que os deuses o abençoe e o protega.

Bandoleiro de encher os olhos: O Cabeleira

Jueves 3 de julio de 2008

Inspirado no romance escrito por Franklin Távora em 1876, baseado nos cordéis sobre a vida do assassino pernambucano José Gomes, O Cabeleira inaugura a série da editora carioca Desiderata. Originalmente a escrita foi feita como roteiro para cinema pela dupla Leandro Assis e Hiroshi Maeda e a arte ficou por conta do veterano Allan Alex. Publicitário e engenheiro, Leandro e Hiroshi têm em comum o interesse pelo cinema. O desenho de Alex é uma espécie de longa-metragem moldado em quadrinhos com belos enquadramentos e cortes cinematográficos. Considerado o primeiro romance regionalista do Brasil, escrito por Franklin Távora, a obra narra a trágica história de José Gomes, conhecido como Cabeleira, um bandoleiro que aterrorizou Pernambuco no século 18. Cabeleira não era um líder como Lampião, mas uma espécie de marionete de seu pai, Joaquim Gomes, o verdadeiro chefe do bando. Filho de mameluco, ele matava e roubava de todos, não perdoava nem a igreja, forte e temida na época. O fora-da-lei que assustou o sertão pernambucano no século 18 foi um precursor do cangaço e teve seus feitos imortalizados em cordel. Em 1876 Franklin Távora contou a história do bandido no romance O Cabeleira que em 1963 foi filmado, tendo Hélio Souto, Milton Ribeiro e Marlene França no elenco. E agora é adaptado exclusivamente para os quadrinhos. O projeto da editora Desiderata é excepcional. Dedicado exclusivamente à narrativa de histórias sob a forma de graphic novels de autores nacionais. E os três rapazes (Allan, Leandro e Hiroshi) mostram a complexidade do ser humano nessa obra. O violento personagem tem sua história contada desde a infância até um trágico conflito com as forças da lei pernambucana. O trabalho do desenhista Alex é extraordinário. Em seu currículo consta “O Segredo da Jurema”, “Sangue Bom”, “Zumbi dos Palmares”, “Brasileiros”, revistas de terror e até parceiros como Solano Lopes. Ele tem longa estrada e sabe visualizar bem a narrativa. Enquadramentos, cortes, elipses, planos, panorâmicas fluem em sua prancha. Dá gosto abrir uma obra produzida por Alex e viajar em seus quadrinhos. Merece todo o destaque na mídia para que se possa comprovar que no Brasil temos ótimos roteiristas e excelentes desenhistas. Há uma boa safra de criadores que precisam ser descobertos. A Desiderata está de parabéns. Vale conferir todas as publicações dessa editora. E O Cabeleira é o máximo de qualidade.

No canto dos trovadores, a voz rasgada do povo

Martes 1 de julio de 2008

“Veja só quanta miséria/veja só quanta agonia/veja a que ponto chegou a nossa Bahia/o povo sem trabalhar/por falta de energia” (Cuíca de Santo Amaro). Um dos poetas mais conceituado do Brasil foi o baiano Cuíca de Santo Amaro, autor do famoso “O homem que inventou o trabalho”. Seu verdadeiro nome era José Gomes (1907/1964) e os seus primeiros trabalhos começaram, a ser divulgados em 1927. Figura controvertida, amigo de grandes personalidades da época, inclusive de Getúlio Vargas, preso algumas vezes por causa de sua mordacidade – Cuíca era um poeta satírico na linha de Gregório de Matos -, personagem de livros feitos na Bahia para alguns era um engodo e para outros era a maior expressão em literatura de cordel no Brasil. Em mais de trinta anos de atividade literária, o poeta Cuíca de Santo Amaro documentou da maneira mais completa a vida cotidiana baiana. Problemas como a carestia do povo, os costumes, os usos e a moral vigentes na cidade de Salvador, os crimes, os desastres e os pequenos casos escabrosos da vida particular baiana. Outro consagrado cordelista é Minelvino Francisco Silva (1926/1999), o trovador Apóstolo. Ele é autor de ABC dos Tubarões, e História do Touro que Engoliu o Fazendeiro. A característica mais marcante do trovador é sem dúvida, o seu acentuado senso crítico, além da sua capacidade para fazer rimas. Mas nem sempre o trovador utiliza dos seus versos para glosar. Há folhetos só de exaltação como “A Chegada de Catulo no Céu”, de Rodolfo Cavalcante. Rodolfo (1917/1987) é autor de obras como ABC da Carestia e As Belezas de Brasília e as Misérias do Nordeste. Ele lutou a favor da classe dos poetas de bancada. Publicou artigos em jornal, organizou congressos e fundou associações e agremiações e com isso, tornou mais digna e representativa a classe dos poetas populares. “Não vês a nossa política/prometendo endireitar/a gente passando fome/tudo subindo subindo/a gente se sucumbindo/o mundo vai se acabar”. É comum na literatura de cordel – diz o crítico Carlos Alberto Azevedo – o culto do herói: Zé Garcia, João Grilo, Vira Mundo, Padre Cícero, Frei Damião e tantos outros, pois que os folhetos decantam a personalidade de um injustiçado, beato ou “santo”. O herói da literatura popular é forjado na própria estrutura social rural, seja em qualquer zona fisiográfica da região (mata, agreste, sertão). O herói é aquele que se rebela contra o statuo quo. Seja ele sertanejo forte e corado ou um Zéamarelinho ancilostizado da zona da mata. “Com esse aperto de vida/o povo que nada pode/pra se esquecer da fome/leva tudo no pagode/agora, na eleição/nas urnas de Jaboatão/o povo votou num bode/não é coisa de poeta/nem é boato inventado/o caso foi verdadeiro/o rádio tem divulgado/se a gente que não crê no jornal tem o clichê/do bode fotografado” (A Vitória de Cheiroso, o Bode Vereador, de Delorme Monteiro e Silva). A temática da seca atinge o ápice da expressão comunicativa, enquanto crônica, narrativa, protesto político-social, jornalismo na literatura de cordel. É preciso não esquecer que, até meados do século XX, tanto o folheto quanto o poeta popular, que improvisava e cantava nas feiras livres nordestinas, os casos e "causos", exerciam a função comunicativa que hoje cabe à mídia, em particular, ao rádio e à televisão. "A Triste partida", de Patativa do Assaré, cantada por Luiz Gonzaga, talvez seja a síntese de tudo que pode acontecer e se relacionar à seca, não passando despercebido da sensibilidade do poeta popular, conforme se observa nos versos: “Setembro passou/Outubro e novembro/Já tamo em dezembro/Meu Deus, que é de nós?/Assim fala o pobre/Do seco Nordeste/Com medo da peste/E da fome feroz/A 13 do mês ele fez experiência/Perdeu sua crença nas pedra de sal/Mas noutra experiência com força se agarra/Pensando na barra do alegre Natal/Rompeu-se o Natal, porém barra não veio/O sol bem vermeio nasceu muito além/Na copa da mata buzina a cigarra/Ninguém vê a barra, pois barra não tem/Sem chuva na terra descamba janeiro/Depois fevereiro e o mermo verão/Entonce o nortista, pensando consigo/Diz: isso é castigo, não chove mais não/Apela pra março, que é o mês preferido/Do santo querido, o senhor São José/Mas nada de chuva, tá tudo sem jeito/Lhe foge do peito o resto de fé/Agora pensando ele segue outra trilha/Chamando a família começa a dizer:/Eu vendo o meu burro, meu jegue, o cavalo/Nós vamo a São Paulo vivê ou morre...” Juscelino Kubitscheck, João Goulart e Jânio Quadros foram os presidentes cantados sobretudo em poemas circunstanciais, após suas eleições, no momento de sua instalação no poder e no momento do encerramento de suas funções. Convém juntar o nome de Getúlio Vargas onde o número de folhetos sobre o presidente gaúcho, após sua morte em 1954, é bem superior ao número de folhetos de cada um de seus sucessores. “Amigo agora peço/a vossa honrada atenção/vou rimar, entre soluços/que me vêm do coração/as horas, tristes, amargas/da morte de Dr.Vargas/Presidente da Nação” (A Vida e Tragédia do Presidente Getúlio Vargas, de Antonio Teodoro dos Santos). A literatura de cordel é um importante meio de expressão popular com valor informativo, documental e de crônica poética e histórica. O cordelista ao mesmo tempo é poeta e jornalista, conselheiro do povo e historiador popular. Em 100 anos de existência a literatura de cordel testemunha a longa evolução percorrida durante mais de um milênio pela literatura européia: a transformação de sua “literatura oral” em literatura na concepção moderna do termo. No Brasil, os encontros, as pelejas, as narrativas de encantamento, os folhetos "de época" vão continuar percorrendo o sertão. E hoje, o cordel é objeto de estudo de vários especialistas. Vida longa ao cordel!.

Literatura de cordel, o jornal do sertão

Lunes 30 de junio de 2008

Histórico, moralista, biográfico, humorístico e até mesmo político são alguns temas que a literatura de cordel vem abordando desde o seu aparecimento até os dias atuais. Um dos poetas de cordel mais conceituado do Brasil foi o baiano Cuíca de Santo Amaro, justamente por causa de sua mordacidade – era um poeta satírico na linha de Gregório de Matos. Exibidos ao público em cordas estiradas no alto das barracas das feiras nordestinas – daí a expressão “literatura de cordel” -, os folhetos aparecem com as pequenas tipografias do interior e são consumidos principalmente por vaqueiros, lavradores e vendedores ambulantes. Os mais variados temas são abordados pelos autores desses folhetos, desde pitorescas histórias, criadas pelo matuto (“A moça que dançou com uma caveira”), à crítica social (“O gozo da mocidade”), passando pela crendice popular (“A moça que sonhou com Padre Cícero e jogou no cavalo”). Também o fato político – real ou resultante da fantasia do povo – mereceu farta bibliografia. O cordel ainda é o jornal por excelência do povo do interior, e o trovador é o seu repórter. Quando acontece um fato importante, ele tem de escrever o folheto rapidamente, mesmo que não dê lucro. Naqueles tempos, na zona rural, em lugares que nem o rádio alcançava, o povo só acreditava nos acontecimentos depois que lesse sobre eles nos versos do cordel. É famoso (e verídico) o caso do matuto que só acreditou que o homem foi à lua depois que leu os detalhes n um folheto popular. É a literatura de cordel refletindo a problemática social do homem nordestino. O início da literatura de cordel está ligado à divulgação de histórias tradicionais, narrativas de velhas épocas que a memória popular foi conservando e transmitindo. São os chamados romances ou novelas de cavalaria, de amor, de narrativas de guerras, viagens ou conquistas marítimas. Mas ao mesmo tempo, ou quase ao mesmo tempo, também começaram a aparecer no mesmo tipo de poesia e de apresentação, a descrição de fatos recentes, de acontecimentos sociais que prendiam a atenção popular. A expressão literatura de cordel surgiu no Brasil entre 1875 e 1880, utilizada pelo folclorista Silvio Romero para definir o conjunto de folhetos de feira. O folheto tem habitualmente de oito a 64 páginas, mede 11 x 16cm e já circulava pelo Nordeste em meados do século XIX. Entre 1893 e 1908 surge a literatura de cordel brasileira, com a publicação de folhetos de pres poetas paraibanos: Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde. As capas dos cordéis antigos eram ilustradas com vinhetas nas tipografias do interior nordestino. É a partir da década de 30 que surgem nas capas de postais, retratos de Padre Cícero e Lampião. E as xilografias (arte de gravar em madeira) só começam a aparecer regularmente a partir da década de 40. Franklin Cerqueira Machado (Maxado), de Feira de Santana, e Francisco Silva (Minelvino), de Itabuna são os xilógrafos mais conhecidos na Bahia. No início da publicação da literatura de cordel no País, muitos autores de folhetos eram também cantadores, que improvisavam versos, viajando pelas fazendas, vilarejos e cidades pequenas do sertão. Com a criação de imprensas particulares em casas e barracas de poetas, mudou o sistema de divulgação. O autor do folheto podia ficar num mesmo lugar a maior parte do tempo, porque suas obras eram vendidas por folheteiros ou revendedores empregados por ele. De custo baixo, geralmente estes pequenos livros são vendidos pelos próprios autores. Fazem grande sucesso em estados como Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba e Bahia. Este sucesso ocorre em função do preço baixo, do tom humorístico de muitos deles e também por retratarem fatos da vida cotidiana da cidade ou da região. Os principais assuntos retratados nos livretos são festas, política, secas, disputas, brigas, milagres, vida dos cangaceiros, atos de heroísmo, milagres, morte de personalidades. Em versos de 10 ou 12 sílabas, em rica variação de versos, a poética de cada folheto conta fatos do cotidiano, estórias de bichos, casos pitorescos, de amor, de Lampião, Padre Cícero, Conselheiro, de figuras públicas, acontecimentos colhidos dos jornais, rádio e tevês, enfim, toda a gama do rico universo do nordestino. Os próprios poetas populares classificam a literatura de cordel em cinco temas mais frequentes: romance, valentia (história de um valentão, que sempre acaba mal), gracejo (uma história engraçada), desafio e encantamento (histórias de reinos encantados, com fadas e bruxas). Geralmente, o próprio poeta popular é o editor e vendedor de suas historinhas, que são penduradas num cordão, enquanto o autor, acompanhado de viola, canta trechos de seus poemas.

Música & Poesia

Viernes 27 de junio de 2008

Pra Poder Te Amar (Martinho da Vila) O amor não tem cor O amor não tem idade O amor não vê cara Nem religião Não faz diferença Do rico e do pobre O amor só precisa De um coração... O amor não tem tom Nem nacionalidade Dispensa palavras Basta um olhar O amor não tem hora Nem fórmula certa Não manda recado Chega prá ficar... O amor entrou na minha vida Quando te encontrei Olhei no teu olhar E me apaixonei Foi tanta emoção Não deu prá segurar Não deu!... O amor contigo ao meu lado É cada vez maior Quero me batizar No sal do teu suor E ter a vida inteira Prá poder te amar... O amor não tem cor O amor não tem idade O amor não vê cara Nem religião Não faz diferença Do rico e do pobre O amor só precisa De um coração... O amor não tem tom Nem nacionalidade Dispensa palavras Basta um olhar O amor não tem hora Nem fórmula certa Não manda recado Chega prá ficar... O amor entrou na minha vida Quando te encontrei Olhei no teu olhar E me apaixonei Foi tanta emoção Não deu prá segurar Não deu!... O amor contigo ao meu lado É cada vez maior Quero me batizar No sal do teu suor E ter a vida inteira Prá poder te amar... O amor entrou na minha vida Quando te encontrei Olhei no teu olhar E me apaixonei Foi tanta emoção Não deu prá segurar Não deu!... O amor contigo ao meu lado É cada vez maior Quero me batizar No sal do teu suor E ter a vida inteira Prá poder te amar Prá pode te amar... Prá pode te amar Amar, amar, amar Amar, amar, amar Prá poder te amar!... Tudos (Arnaldo Antunes) Eu apresento a página branca. Contra: Burocratas travestidos de poetas Sem-graças travestidos de sérios Anões travestidos de crianças Complacentes travestidos de justos Jingles travestidos de rock Estórias travestidas de cinema Chatos travestidos de coitados Passivos travestidos de pacatos Medo travestido de senso Censores travestidos de sensores Palavras travestidas de sentido Palavras caladas travestidas de silêncio Obscuros travestidos de complexos Bois travestidos de touros Fraquezas travestidas de virtudes Bagaços travestidos de polpa Bagos travestidos de cérebros Celas travestidas de lares Paisanas travestidos de drogados Lobos travestidos de cordeiros Pedantes travestidos de cultos Egos travestidos de eros Lerdos travestidos de zen Burrice travestida de citações água travestida de chuva aquário travestido de tevê água travestida de vinho água solta apagando o afago do fogo água mole sem pedra dura água parada onde estagnam os impulsos água que turva as lentes e enferruja as lâminas água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções insípida, amorfa, inodora, incolor água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky água onde não há seca água onde não há sede água em abundância água em excesso água em palavras. Eu apresento a página branca. A árvore sem sementes. O vidro sem nada na frente. Contra a água.

De olhos abertos ao real

Jueves 26 de junio de 2008

No mundo global saturado pelos meios de comunicação, existe uma super produção de imagens da realidade. Assim, a realidade é socialmente fabricada, os imaginários culturais são parte dessa realidade. Nosso acesso ao real e à realidade somente se processa por meio de representações, narrativas e imagens. Com o esmorecimento das vanguardas e a fragmentação de agendas políticas, o realismo crítico emerge em diferentes vertentes, tecendo um contraponto com o realismo sentimentalizado das telenovelas, o realismo mainstream dos filmes de Hollywood, o realismo sensacionalista da imprensa, o realismo espetacularizado dos reality shows, entre muitos outros. Essa modernidade promoveu um desencantamento do mundo na medida em que negou o mágico, mítico, misterioso e oculto. Esse desencantamento do mundo gerou uma crise de sentidos, na medida em que a ciência e a técnica não seriam mais capazes de oferecerem explicação sobre o significado da existência humana. E é aí que entra o processo de criação de instituições de vigilância, purificação e disciplina, configuradas em âmbitos espaciais específicos, tais como a escola, a fábrica e a prisão. O indivíduo moderno se auto constrói mediante interiorização das normas vigilantes sociais. O pensamento é de Michel Foucault. Nas últimas décadas os debates em torno da cultura do espetáculo (Guy Debord, 1967), da desaparição do real pela produção do simulacro (Jean Baudrillard, 1983) ou a crítica à perda do sentido da história por meio do pastiche midiático e artístico (Fredric Jamenson, 1991) são parte central das discussões sobre a condição pós-moderno que enfatiza a porosidade entre o vivido e o imaginado; entre a experiência e a produção da realidade pelos meios de comunicação; entre a memória pessoal, histórica e coletiva e as memórias imaginadas dos meios de comunicação. Ao articular sua crítica à sociedade capitalista ocidental, as imagens imperam, impõem o domínio da aparência e fomentam a alienação social já que dinamitam agenciamentos sociais em prol das fabricações visuais que não convidam ao diálogo, mas à mera passividade da absorção comunista. Para Baudrillard, as perspectivas de agenciamento político foram completamente esmagados pelo domínio não mais da mera imagem, mas do simulacro midiático. No mundo do simulacro não há mais real nem realidade, somente cópias e imagens autônomas, que não possuem lastro do real. As noticias televisivas, por exemplo, que comentam eventos, atentados, estariam na plena ordem do simulacro, porque atuam em esfera própria, fabricando enredos próprios como num jogo virtual. Já Jamenson questiona o pós-moderno como um estágio no desenvolvimento do capitalismo tardio, marcado pelo desaparecimento da natureza e o apagamento do sentido da história. Estaríamos rendidos aos jogos híbridos dos parques temáticos e dos shopping malls. Assim, tudo se consuma e se neutraliza na circulação de um presente saturado de mercadorias, imagens\e realidades mediadas. Se já não há crenças nem tomadas de posição revolucionárias nesse presente de banalidade do cotidiano, da descartabilidade do sujeito para atiçar uma sublimação da experiência com algo revelatório, o que apostar?. Nessa proliferação midiática, da perda de espaços públicos, do esgarçamento de experiências coletivas, nem todos sucumbem inteiramente à cultura do espetáculo. Há sempre uma brecha, um fio onde o real e a realidade são arduamente contestados e fabricados. Resta-nos abrir bem os olhos para essa realidade que nos apresenta.

De olhos bem abertos

Miércoles 25 de junio de 2008

Olhar em italiano (guardare) e em francês (regarder) significa cuidar, zelar, guardar, ou seja, ações que trazem o outro para a esfera dos cuidados do sujeito: olhar por uma criança, olhar por um trabalho. Já no sentido de vigilância: estar de olhar, ficar de olho. A pessoa pode ver com bons olhos (esperança) ou mau olhado que seca as plantas (inveja, do latim invidia que significa mau olhado – in-contra, ved-tema de visão). Há diversos modos de olhar com que a antropologia popular descreve. Se há sinais de ganância o povo diz olho gordo. Se o desejo é voraz tem olho comprido, se é parado (olho de peixe morto), agudo (olho de lince), infiel (olho de gato), tímido (olho de coelho), cruel (olho de cobra), sensual (olho de macaca). Detetive, em inglês, se diz private eye, olhar que espia, espreita e espiona. Há uma crença perceptiva de que “o pior cego é aquele que não quer ver”, pois as coisas aí estão, visíveis. O olhar sempre foi considerado perigoso: as filhas e a mulher de Ló, transformadas em estátuas de sal. Orfeu perdeu Eurídice. Narciso perdeu de si mesmo. Édipo cego para ver o que, vidente, não podia enxergar. Perseu defendendo-se da Medusa forçando-a a olhar-se. Os índios, recusavam espelhos, pois sabiam que a imagem refletida é sua própria alma e que a perderão se nela depositarem o olhar. Olhos nos olhos, quando há sinceridade, o olhar expõe no e ao visível nosso íntimo e o de outrem. Olhar é, ao mesmo tempo, sair de si e trazer o mundo para dentro de si. A cegueira, disse Sócrates no Fédon, é a perda do olho da mente. Olhar em direção ao passado, na memória. A educação dos sentidos sempre fascinou os filósofos enciclopedistas. Para eles, os sentidos não educados são incapazes de perceber o mundo. Através da história o homem aprendeu a ver, criou modos de ver. O Barroco é um dos modos de ver a realidade, assim como o Expressionismo, Modernismo etc. No mundo dos sentidos não há estabilidade nem harmonia, dizem alguns autores. Os sentidos, como as paixões, perturbam a alma, e, sem esperança, conduzem ao vício e à loucura. O filósofo Platão nos convida a desconfiar da percepção. Já Epicuro, os sentidos são os mensageiros do conhecimento. E Merleau-Ponty diz que “todo o saber se instala nos horizontes abertos pela percepção”. É a aptidão visual para o discernimento que leva Horacio, na Arte Poética, a afirmar que “a mente é movida mais lentamente pelo ouvido do que pelo olho, que faz as coisas parecerem mais claras”. Os olhos são espelhos do mundo, janela da alma, escreveu Leonardo da Vinci. Giordano Bruno disse que “a vista é o mais espiritual de todos os sentidos”. Já o padre Antônio Vieira disse que nos olhos estão compreendidos todos os sentidos. E Hegel acreditava no olho do espírito. “A vida que ninguém vê” da jornalista Eliane Brum é um bom exemplo do que é capaz o poder do olhar e de um bom texto para que se possa tocar o leitor. No livro, Eliane conta a história de pessoas normalmente tidas como parias, ou invisíveis. São personagens do nosso cotidiano, mas fingimos que não os vemos, ou somos levados a achar que sua condição é natural. Com grande sensibilidade, Eliane descobre o tema da grande reportagem mudando apenas o ângulo, o foco, ou, numa palavra, o olhar. No texto que encerra o livro, “O olhar insubordinado”, ela faz sua profissão de fé: “Quem consegue olhar para a própria vida com generosidade torna-se capaz de alcançar a vida do outro”, “Olhar é um exercício cotidiano de resistência”, “Olhar dá medo porque é risco”. Contrariando o último filme do cineasta Stanley Kubrick, “De Olhos Bem Fechados/Eyes Wide Shut”, abra bem os olhos, ou melhor, faça uma visita a reserva biológica Abrolhos, área destinada exclusivamente à preservação da fauna e flora. O nome Abrolhos provém da advertência Abra os Olhos, contida em antigas cartas náuticas portuguesas, aos navegantes daquela região, devido aos perigos que ela oferece dada a grande quantidade de recifes submersos. Distante aproximadamente de 70 Km da costa brasileira na região sul do estado da Bahia, é composto por um grupo de recifes de corais, ilhas vulcânicas e a plataforma continental dentro de seus limites (um polígono e um quadrilátero de interdição, visualizados nas cartas náuticas). O complexo recifal mais importante do Atlântico Sul, sabe, como poucos, enfeitiçar turistas do mundo inteiro encantando-os com seus infinitos recursos naturais. Como o poeta Fernando Pessoa, que em seu leito de morte, segundo relata o biógrafo João Gaspar Simões, profere suas últimas palavras: “Dá-me os óculos!”. E Goethe em suas palavras finais disse: “Mais luz!”. E para encerrar essa crônica do olhar, nada melhor do que rever a composição “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque: “Quando você me deixou, meu bem/Me disse pra ser feliz e passar bem/Quis morrer de ciúme/Quase enlouqueci/Mas depois como era de costume, obedeci//Quando você me quiser rever/Já vai me encontrar refeita, pode crer//Olhos nos olhos/Quero ver o que você faz/Ao sentir que sem você eu passo bem demais//E que venho até remoçando/Me pego cantando sem mais nem porque//E tantas águas rolaram/Tantos homens me amaram bem mais e melhor que você//Quando talvez precisar me mim/Você sabe que a casa é sempre sua, venha sim//Olhos nos olhos/Quero ver o que você diz/Quero ver como suporta me ver tão feliz”

Música & Poesia

Viernes 20 de junio de 2008

São João é na Bahia (Edigar Mão Branca) Se for baiano como eu não tenha medo, Levante o dedo e me diz que faz o melhor São João Quem for baiano como eu levante o dedo Não tenha medo e me diz quem faz o melhor São João Tem gente que diz que é Paraíba, A quem me diga que é o Bumba – meu – boi do Pará Aracajú, Caruaru, Fortaleza Maceió diz que melhor São João não há Já eu um baiano da folia Falo com alegria e muita convicção Nossa Bahia é de todos os santos Poesia e encanto do melhor São João Nossa Bahia é de todos os santos Poesia e encanto do melhor São João E se os “cantador” de lá, estão aqui em casa todo dia Na Bahia, porque negar Se os cantadores de lá, estão aqui em casa todo dia Ta comprovado, São João “arretado” é o São João da Bahia E se os “cantador” de lá, estão aqui em casa todo dia Na Bahia, então porque negar Se os forrozeiros de lá, estão aqui em casa todo dia Ta comprovado, São João “arretado” é o São João da Bahia Quem for baiano como eu não tenha medo, Levante o dedo e me diz que faz o melhor São João Quem for baiano como eu levante o dedo Não tenha medo e me diz quem faz o melhor São João Tem gente que diz que é Paraíba, A quem me diga que é o Bumba – meu – boi do Pará Aracajú, Caruaru, Fortaleza Maceió diz que melhor São João não há. Já eu um baiano da folia Falo com alegria e muita convicção Nossa Bahia é de todos os santos Poesia e encanto do melhor São João Nossa Bahia é de todos os santos Poesia e encanto do melhor São João Nossa Bahia é de todos os santos Poesia e encanto do melhor São João E se os “cantador” de lá, estão aqui em casa todo dia Na Bahia, porque negar Se os cantadores de lá, estão aqui em casa todo dia Ta comprovado, São João “arretado” é o São João da Bahia E se os “cantador” de lá, estão aqui em casa todo dia Na Bahia, então porque negar Se os forrozeiros de lá, estão aqui em casa todo dia Ta comprovado, São João “arretado” é o São João da Bahia. Operário em Construção (Vinicius de Moraes) E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: – Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: – Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás. Lucas, cap. V, vs. 5-8. Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia, por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão. De fato, como podia Um operário em construção Compreender por que um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava Com pá, cimento e esquadria Quanto ao pão, ele o comia... Mas fosse comer tijolo! E assim o operário ia Com suor e com cimento Erguendo uma casa aqui Adiante um apartamento Além uma igreja, à frente Um quartel e uma prisão: Prisão de que sofreria Não fosse, eventualmente Um operário em construção. Mas ele desconhecia Esse fato extraordinário: Que o operário faz a coisa E a coisa faz o operário. De forma que, certo dia À mesa, ao cortar o pão O operário foi tomado De uma súbita emoção Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa – Garrafa, prato, facão – Era ele quem os fazia Ele, um humilde operário, Um operário em construção. Olhou em torno: gamela Banco, enxerga, caldeirão Vidro, parede, janela Casa, cidade, nação! Tudo, tudo o que existia Era ele quem o fazia Ele, um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão. Ah, homens de pensamento Não sabereis nunca o quanto Aquele humilde operário Soube naquele momento! Naquela casa vazia Que ele mesmo levantara Um mundo novo nascia De que sequer suspeitava. O operário emocionado Olhou sua própria mão Sua rude mão de operário De operário em construção E olhando bem para ela Teve um segundo a impressão De que não havia no mundo Coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão Desse instante solitário Que, tal sua construção Cresceu também o operário. Cresceu em alto e profundo Em largo e no coração E como tudo que cresce Ele não cresceu em vão Pois além do que sabia – Exercer a profissão – O operário adquiriu Uma nova dimensão: A dimensão da poesia. E um fato novo se viu Que a todos admirava: O que o operário dizia Outro operário escutava. E foi assim que o operário Do edifício em construção Que sempre dizia sim Começou a dizer não. E aprendeu a notar coisas A que não dava atenção: Notou que sua marmita Era o prato do patrão Que sua cerveja preta Era o uísque do patrão Que seu macacão de zuarte Era o terno do patrão Que o casebre onde morava Era a mansão do patrão Que seus dois pés andarilhos Eram as rodas do patrão Que a dureza do seu dia Era a noite do patrão Que sua imensa fadiga Era amiga do patrão. E o operário disse: Não! E o operário fez-se forte Na sua resolução. Como era de se esperar As bocas da delação Começaram a dizer coisas Aos ouvidos do patrão. Mas o patrão não queria Nenhuma preocupação – "Convençam-no" do contrário – Disse ele sobre o operário E ao dizer isso sorria. Dia seguinte, o operário Ao sair da construção Viu-se súbito cercado Dos homens da delação E sofreu, por destinado Sua primeira agressão. Teve seu rosto cuspido Teve seu braço quebrado Mas quando foi perguntado O operário disse: Não! Em vão sofrera o operário Sua primeira agressão Muitas outras se seguiram Muitas outras seguirão. Porém, por imprescindível Ao edifício em construção Seu trabalho prosseguia E todo o seu sofrimento Misturava-se ao cimento Da construção que crescia. Sentindo que a violência Não dobraria o operário Um dia tentou o patrão Dobrá-lo de modo vário. De sorte que o foi levando Ao alto da construção E num momento de tempo Mostrou-lhe toda a região E apontando-a ao operário Fez-lhe esta declaração: – Dar-te-ei todo esse poder E a sua satisfação Porque a mim me foi entregue E dou-o a quem bem quiser. Dou-te tempo de lazer Dou-te tempo de mulher. Portanto, tudo o que vês Será teu se me adorares E, ainda mais, se abandonares O que te faz dizer não. Disse, e fitou o operário Que olhava e que refletia Mas o que via o operário O patrão nunca veria. O operário via as casas E dentro das estruturas Via coisas, objetos Produtos, manufaturas. Via tudo o que fazia O lucro do seu patrão E em cada coisa que via Misteriosamente havia A marca de sua mão. E o operário disse: Não! – Loucura! – gritou o patrão Não vês o que te dou eu? – Mentira! – disse o operário Não podes dar-me o que é meu. E um grande silêncio fez-se Dentro do seu coração Um silêncio de martírios Um silêncio de prisão. Um silêncio povoado De pedidos de perdão Um silêncio apavorado Com o medo em solidão. Um silêncio de torturas E gritos de maldição Um silêncio de fraturas A se arrastarem no chão. E o operário ouviu a voz De todos os seus irmãos Os seus irmãos que morreram Por outros que viverão. Uma esperança sincera Cresceu no seu coração E dentro da tarde mansa Agigantou-se a razão De um homem pobre e esquecido Razão porém que fizera Em operário construído O operário em construção.

Árvores, os pulmões da Terra

Jueves 19 de junio de 2008

O poeta St. John Perse gostava de dizer que todo livro nasce da morte de uma árvore. E como escreve o jornalista Sérgio Augusto, a dívida da palavra impressa com a celulose de que se alimenta é grande. Basta observar que book, bouquin e Buch derivam de boscus, bosque, e livro vem de líber, o tecido condutor da seiva das árvores. Poetas e prosadores utilizaram, a árvore como fonte de inspiração. Pinhos e magnólias eram celebrados por Francis Ponge, o baobá no imaginário de Antoine de St. Exupéry e Roger Caillois, no tronco do ipê de José de Alencar ou no meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos. E os versos que Drummond criou pensando nas mangueiras de sua infância e nas amendoeiras de sua idade adulta. E não ficou só na literatura. A árvore encontrou campo fértil na gravura e na pintura a partir do Renascimento. Durer, Bruegel, Corot, Poussim, Cézanne e muitos outros desenharam de tudo quanto é jeito. Nos desenhos animados, Walt Disney é imbatível. As árvores falam e contam todo o seu sofrimento e alegrias com os humanos. Pulmões da Terra e abrigos seguros, sem as árvores as paisagens murcham e o ar empobrece. Elas nos dão além de brisa e vento, flores, frutas, êxtase, lenha e matéria-prima para uma infinidade de coisas: casas, móveis, papel, rolhas, embarcações, talheres, armas, tamancos, instrumentos musicais, pneus, etc... O biólogo australiano Tim Flannery, autor do livro “The Weather Makers” lembrou que, até hoje, nós mal sabemos o que vem a ser, precisamente, uma árvore. Até duas décadas atrás podíamos estar convencido de sabermos, mas o estudo do DNA balançou todo o conhecimento, colocando o cogumelo mais perto do homem que da couve-flor e provando que a teça, árvore indiana de grande porte, é parente muito próxima do orégamo e do manjericão. Flannery se espanta ao registrar que, ultimamente, os botânicos põem os carvalhos mais ou menos ao lado dos pepinos. Desta forma, as árvores têm uma história épica, com grandes aventuras migratórias gravadas em seu genoma. Colin Tudge, autor de “The Tree” informa que há espécies que podem ser árvores ou arbustos, dependendo d onde resolvam fincar raízes. Além de árvores que, no passado, foram trepadeiras ou mesmo ervas rasteiras. E árvores já é assunto do momento. Enquanto o inglês Thomas Pakenham retrata com sua câmara Linhof plantas de vários continentes, o engenheiro florestal Harri Lorenzi já está na nova edição de “Árvores Brasileiras”. Uma pesquisa publicada na Califórnia afirma que remover as árvores do planeta pode esfriá-lo. Segundo o novo estudo, como as florestas são muito verdes e fechadas, elas conseguem absorver mais o calor do sol que outra vegetação, tornando o clima mais quente. As árvores, até hoje, eram consideradas fundamentais por seqüestrar o carbono da atmosfera (presente nas moléculas de CO2 que aquecem o clima). As árvores se transformaram num símbolo ímpar, apresenta em quase todas as religiões arcaicas. Sejam maias, babilônicos, nórdicos e germânicos representavam com eles o cosmo. Os gregos as veneravam. Os lituanos (antes de serem convertidos ao cristianismo) praticavam abertamente a dendrolatria, o culto à árvore. E até o cristianismo tem uma simbólica macieira em sua mitologia. Suas características morfológicas, sua verticalidade, imobilidade, frondosidade e longevidade, pela força de sua presença e seu poder de regeneração, elas são símbolo impar, presente em quase todas as religiões arcaicas. As árvores exercem um fascínio imenso sobre nós. No livro “O Homem e Seus Símbolos”, sobre a obra de Carl Gustav Jung, Marie Louise von Franz compara o desenvolvimento do ser humano ao das plantas. A semente contém o futuro pinheiro. Mas reage às circunstâncias, como qualidade do solo e vento, inclinando-se em direção ao sol e modelando o crescimento da árvore. Assim também acontece com o homem, de maneira espontânea e inconsciente, ela escreveu. Os celtas acreditavam que há muito em comum entre as árvores e as características das pessoas. Tanto que criaram um oráculo baseado nas plantas. Há 20 anos, Liz e Colin Murray resgataram esse conhecimento e escreveram The Celtic Tree Oracle, com 24 cartas, que incluem bétula, álamo, freixo, árvores típicas da Europa. Esse oráculo tem relação com o alfabeto celta, e criado pelos druidas com base em gestos dos dedos, conta a pesquisadora Wicca Mirela Fahur, autora do livro O Legado da Deusa. Adaptado para o Hemisfério Sul, o oráculo traz árvores tropicais, como coqueiro e goiabeira. Carvalho, ipê, oliveira e jacarandá representam as pessoas que nasceram em datas especiais de mudança de estação no Hemisfério Norte. E o nome Brasil foi tirado de uma leguminosa, imortalizamos a chegada da corte de D. João VI com o plantio de uma palmeira imperial, cultuamos o mito de que “nossos bosques têm mais vida” e cultiva,mos o hábito de dar as pessoas e lugares patronímicos como Oliveira, Carvalho, Laranjeiras e Mangueira. Agora falta ter um relacionamento mais afetuoso com as árvores.

Cardápio da comida desperdiçada

Miércoles 18 de junio de 2008

Em época de crise, alimentos que normalmente são jogados fora se revelam fonte de nutrientes e uma forma eficaz de economizar. Vale a pena começar a aproveitar folhas, ossos, cascas de ovo e verduras para fazer receitas gostosas e de alto valor nutritivo. Através de programas de incentivo e descobertas de donas de casa, está surgindo um cardápio brasileiro que põe um fim no desperdício de comida. Ricos em vitaminas, proteínas e fibras, alimentos como folha de bredo, de batata, de chuchu, sementes de abóbora e melancia podem ser consumidas das mais variadas formas. Uma variedade de folhas pode ser refogada com carne, em forma de sopas, ou transformadas em sucos, de preferência com limão, um agente de vitamina C. O suco de couve com limão e adoçado com rapadura é um superalimento. As crianças podem saborear o fubá de milho, o fubá de arroz, ricos em vitaminas do complexo B e sais minerais. O mais recomendado para mingau, sopa, vitamina, bolo, pão e fruta é o farelo de trigo, que pode ser comprado com mais facilidade. É bom prestar atenção nas cascas. As vitaminas das frutas e verduras ficam encostadas na casca, que em geral vão para o lixo. Aproveitem em receitas como farofas e geléias a casca da banana, da abóbora, ou frita para salgadinho. Ricos em fibras são o bagaço da laranja. Todas estas dicas são frutos de estudos das nutricionistas baianas que repassaram suas pesquisas para o programa de combate à fome. Aparas e sobras podem ser usadas em quase tudo. Folhas de beterraba viram suflê. Se faltar o tira-gosto, sementes torradas de abóbora cumprem o papel direitinho. A refeição de hoje sugere a de amanhã, investindo-se o mínimo em ingredientes. Mas a economia é apenas uma das vantagens do aproveitamento integral dos alimentos. O ganho em nutrientes pode ser surpreendente. O caldo resultante do cozimento de carnes, legumes e verduras é rico em vitaminas e sais minerais que, normalmente, só o ralo da pia chega a conhecer. Os nutricionistas avisam, entretanto, que abandonar a polpa e só comer as cascas, ou beber o caldo e jogar fora a carne é cair em um novo engano. Não se pode dizer que cascas e outras aparas são sempre mais nutritivas que as partes utilizadas comumente. Elas podem ser mais ricas em determinado princípio nutritivo, mas pobres em outro. O que se deve pensar é no aproveitamento integral dos alimentos, alertam. É preciso estar alerta também para os efeitos das altas temperaturas no cozimento. O excesso de calor nas grelhas e chapas, por exemplo, apesar de provocarem a fundição da gordura - útil para quem tenta emagrecer - destrói as proteínas. No forno, também pode haver grandes perdas. A carne assada em temperaturas superiores a 200 graus centígrados chega a encolher mais de 30%. Panelas de alumínio e antiaderentes liberam substâncias tóxicas que ficam impregnadas nos alimentos. Dê preferência às panelas de barro, pedra, ferro, vidro e porcelana refratária. Como aproveitar o alimento inteiro: Para refogados, feijão e sopas podem ser utilizados os talos de couve, espinafre e taioba, ricos em fibras; Da abóbora nada se perde: casca, folhas, cabo, polpa e caroço, que torrado com sal é excelente aperitivo, bom para rins e bexiga. Idem para a soja; Folhas de rabanete, beterraba e nabo são mais concentradas em carboidratos, vitaminas A e C, fósforo e cálcio que suas raízes. Picadas, são ótimas em saladas e conserva; Pó de folha de mandioca contém muita vitamina A e ferro. Seque as folhas à sombra e bata-as no liquidificador, guardando-as em vidro fechado. Uma pitada na comida garante energia. Para aproveitar bem o suco do limão, bata a casca com um socador antes de cortá-lo; Paçocas e mingaus feitos à base de caroços torrados e moídos de melancia, girassol e abóbora são deliciosos, nutritivos e têm sabor de amendoim; As verduras mantêm mais valor nutritivo se cozidas o menor tempo possível; O caroço de abacate e casca de ovo moídos ficam excelentes em farofas. A casca do ovo é rica em cálcio, enquanto o caroço do abacate ralado pode ser usado como condimento suave; Para evitar que a metade não utilizada do abacate se deteriore, deixe-a com o caroço. Não jogue fora tomates moles: 15 minutos em água gelada e voltam a ficar rijos; A folha da abóbora, ideal para refogados, bolinhos e sopas, é 20 vezes mais nutritiva que a própria abóbora; Casca de banana ouro à milanesa tem gosto igual ao da berinjela; O cozimento no vapor é sempre melhor para os vegetais; De modo geral, verduras e frutas não devem ficar guardadas por mais de sete dias na geladeira. Mas, mesmo perdendo as vitaminas, elas ainda possuem as fibras. O preconceito é o principal empecilho à população do aproveitamento total dos alimentos. Consideradas recursos de última mão, as partes não-convencionais dos alimentos são tabus a serem superados pelos programas de incentivo, que atendem principalmente às famílias de baixa renda. O maior problema era convencer as mães de que a sobra não é ração. O aproveitamento total dos alimentos é um mundo desconhecido que precisa ser explorado. O uso de talos, cascas folhas e sementes também tem caráter ecológico. O uso dessas partes dos alimentos diminuiria em muito o lixo nas cidades, além de resolver em parte o problema nutricional de muitas famílias. “Existe um excesso de desperdício que caracteriza bem a nossa sociedade, que valoriza muito o descartável. Precisamos acabar com a falta de informação e o preconceito, responsável por tanto desperdício”, afirmou uma nutricionista.

Desejo atrai tragédia?

Martes 17 de junio de 2008

Desde tempos remotos que existe uma conexão entre o desejo e a tragédia. Basta lembrar Édipo e Antigonas nas tragédias gregas entrelaçando o desejo e a morte. O mesmo para Paola e Francesco na romântica e cruelmente encarcerados no Inferno de Dante. E o desejo devastado entre Romeu e Julieta? Essa dupla temática básica – desejo e morte – são questões humanas fundamentais e muito antes da formalização do conceito (com Freud) já nasceu com a origem do homem, marcado pelo pecado bíblico e sua punição maior, a perda do paraíso. Enquanto a tragédia (que permeava a cultura grega) lida com o destino inevitável, o drama surge a partir do Renascimento e caminhou junto à Revolução Industrial e aos ideais iluministas. A tragédia obedece a um destino fatalista, teocentrista, o drama enfoca a vida real onde o sujeito é um ser racional, senhor de si e do mundo. Nasce o herói que busca escapar do sofrimento, desafia o desígnio dos deuses ou enfrenta o peso da tradição e da moral vigente. A civilização ocidental (o oposto da oriental) tem como um de seus pressupostos o controle de fluxos primais e estimuladores da potência do corpo. Esse mecanismo de controle utiliza-se da moral e da ética como forma de manipular as relações entre os corpos. Tenta-se esse controle também através dos artifícios da racionalidade e do conhecimento, que por vezes, estão a reboque de determinados interesses humanos. Apolo, em sua figura mítica, é o senhor da aparência, da forma e do equilíbrio. Dionísio, por sua vez, lhe opõe o movimento, é a transformação, a ruptura, o caos das sensações e das paixões. Energia, matéria, tensões e formas são os termos dessa equação existencial. Na tentativa de se proteger e minimizar essa finitude, o homem monta para si, estratégias de permanência e controle desse caos iminente (nascer, amadurecer e morrer). Estende no espaço sua teia existencial: sua cultura, sua tecnologia, seus conhecimentos, os complexos organizativos e administrativos dessa condição finita. A arte não tem tido dificuldade em ligar o desejo erótico ao desejo de morte e aniquilação. O próprio amor é uma espécie de morte – o amante é penetrado ou atacado. Nesta tradição, os delírios do amor, especialmente o orgasmo (em francês une petite mort, “uma pequena morte”), são símbolos da morte real. Argumenta-se que as mortes em Tristão e Isolda ou em Romeu e Julieta indicam o desejo oculto dos amantes de extinção conjunta. Na arte é extraordinariamente perigoso ser uma mulher apaixonada, como nos lembra a interminável procissão de Ofélias, Violetas, Toscas e Mimis. Até mesmo Eros (desejo) é contaminado por Thanatos (morte). Preste bastante atenção em algumas obras de arte e observe que o desejo erótico tem a morte no seu centro. Cada um de nós pergunta se a vida tem sentido. Depende. A vida é uma corrente de acontecimentos vividos no interior da qual há frequentemente bastante sentido para nós próprios e os que nos rodeiam. O sorriso do filho significa tudo para a mãe, a carícia significa beatitude para o amante, a mudança de frase significa felicidade para o escritor. O sentido vem da entrega e do prazer, da corrente de pormenores que são importantes para nós. Se a vida humana algumas vezes é dor, outras vezes pode ser delícia. Experienciar o mundo, para qualquer criança, é pura maravilha. Descobrir e vivenciar o amor é descobrir o sentido religioso da vida, é viver momentos de entrega. A amizade pode ser a revelação e o aprendizado do outro, do diferente. O trabalho, a luta pelos ideiais, a realização de alguns de nossos objetivos (mesmo que não exatamente como os sonhamos) é pura transcendência. A velhice pode ser o momento de sabedoria. A vida humnana passa, a todo instante, pela beleza e pela epifania. Como viver é muito misturado (dor e alegria, tragédia e comédia) é razoável supor que a melhor representação da vida humana na arte é aquela que mostra os dois pólos desta experiência: a dor, mas também a felicidade de existir. Mostrar a afirmação na tragédia e a tragédia na afirmação, eis a receita da grande arte de todos os tempos. Sem os opostos não há progresso. Atração e repulsão, razão e energia, amor e ódio são necessários para a existência humana. O detalhe é a ênfase. O cinema do diretor Pedro Almodóvar, por exemplo, transita da tragédia à comédia, sem regras nem amarras. Nessa mescla de gêneros cinematográficos, Almodóvar nada mais faz do que uma atualização de um fenômeno verificado no teatro e na literatura e no qual se ilustraram Aristóteles (A Poética), Victor Hugo e Pierre Corneille (El Cid).

Memória para lembrar ou esquecer

Lunes 16 de junio de 2008

Todos nós sabemos que o passado é necessário para viver. Essa experiência do passado permite a cada instante que nos adaptemos ao presente e antevejamos o futuro. A memória permite viver. Pouco a pouco a memória torna a criança um adulto apto a desenvolver atividades variadas como a linguagem, a escrita, a abstração. Mas a memória se desfaz com a idade. A memória humana é a capacidade mental de reter, recuperar, armazenar e evocar informações disponíveis seja internamente (cérebro), seja externamente (dispositivos artificiais). A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias, ajudando a tomar decisões diárias. A psicologia, a psiquiatria e a biologia estão, cada vez mais, descobrindo os mistérios da memória, o cerne de nosso comportamento, de nossa vida mental, de nossa inteligência, de nossa linguagem, mas também de nossos conflitos intrapsíquicos e de nosso equilíbrio afetivo. Muitos especialistas no assunto afirmam que a memória é sensível ao que os olhos lhe transmitem: prefere as imagens aos sons, aos toques, aos odores, aos sabores. Os publicitários sabem disso, pois nos inudam de imagens para exaltar marcas e produtos. E sob esse dilúvio, o cérebro é seletivo. Como uma esponja, absorve grande parte das imagens e esquece outras, slogans e marcas por exemplo. O poder de sedução da imagem é tão forte que a prova disso está na força das histórias em quadrinhos, tido como leitura só para crianças e muito combatida durante décadas, mas que hoje todos sabem que é uma boa fonte para criar hábito de leitura, principalmente em países do terceiro mundo. Um bom exemplo disso está na cidade de Salvador e observar as bibliotecas. A da Monteiro Lobato é muito frequentada pelos jovens devido ao número de revistas em quadrinhos em salas especiais. No tempo da “Odisséia” de Homero, a informação oral era a única memória da comunidade. Hoje, as bibliotecas e os bancos de dados aliviam nossa memória individual de muitas coisas. É bom lembrar que a Marcel Proust, bastaram alguns pedacinhos de bolacha molhados no chá para reencontrar o tempo perdido ao lado de Swann, em Combray. Um detalhe que extrai da memória a complexidade, a riqueza da vida em Combray. As lembranças são sempre compostas. Quando se vive uma experiência em que se resolve um problema, os cinco sentidos participam. Basta uma palavra, um odor, sabor, imagem para que uma das vias, que participam da elaboração da lembrança global, seja reativada. Cada faixa etária tem causa específica para o esquecimento. Pode começar nos primeiros anos de vida, na adolescência e se agravar na idade avançada. Nas crianças a perda de memória pode ser ocasionada por diversos fatores (problemas no nascimento, hipotireoidismo, hiperatividade, desnutrição). Na adolescência, o esquecimento pode aparecer através de problemas emocionais ocorridos na infância ou pelo uso de drogas. Na idade adulta, o esquecimento tem como indicação mais comum o estresse. Ao contrário da amnésia em que há perda de uma capacidade, o esquecimento é uma falha na retenção ou na evocação dos dados da memória. Fenômeno comum que, em maior ou menor grau, ocorre com qualquer pessoa. No entanto, é cada vez maior o número de pessoas que se sentem incomodadas com o problema e que buscam solução. A principal questão no que se refere ao esquecimento é saber sua causa. Alguns postulam que ocorre uma debilitação dos traços de memória com o passar dos anos. Outros acreditam que novos conhecimentos podem interferir prejudicando a memória. O desuso provocaria um esquecimento dos circuitos da memória. Com o passar da idade as pessoas têm mais dificuldade para lembrar de fatos passados, porém essa dificuldade é mais intensa para os fatos recentes enquanto os remotos marcantes, ainda que não utilizados com freqüência, podem ser lembrados facilmente. Para combater, dois usos do esquecimento. Como já sabia Ulisses, sobretudo no trato com Circe e Calipso, o esquecimento pode ser cultivado para se desfazer do afeto infeliz e abrasador. A ambivalência não lhe é fortuita. Para os arqueólogos e historiadores o culto aos mortos é o primeiro sinal de civilização. Para o filósofo Nietzsche, pensar a moral significa a necessidade “de manter o esquecimento dentro de certos limites”. Essa ambivalência (lembrar/esquecer) costuma ser complexa. Isso porque muitas pessoas precisam lembrar, exercitar a recordação, enquanto essas mesmas pessoas também precisam esquecer outras (um trauma na infância, por exemplo). Cabe a você leitor e refletir sobre o tema e divagar com seus pensamentos, conhecimentos: o que recordar, o que esquecer?

Música & Poesia

Viernes 13 de junio de 2008

Tocando em Frente (Renato Teixeira/Almir Satter) Ando devagar porque já tive pressa E levo o seu sorriso Porque já chorei demais Hoje me sinto mais forte Mais feliz quem sabe eu só levo a certeza De que muito pouco eu sei Nada sei Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas e das maças É preciso amor pra poder pulsar É preciso paz para poder seguir É preciso chuva para poder florir Sinto que seguir a vida seja simplesmente Conhecer a marcha, ir tocando em frente. Por um velho boiadeiro levando a boiada, Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou, Estrada eu sou. Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas e das maças É preciso amor para poder pulsar É preciso paz para poder seguir É preciso chuva para florir Todo mundo ama um dia Todo mundo chora, um dia a gente chega. E no outro vai embora Cada um de nós compõe a sua própria historia E cada ser em si carrega o dom de ser capaz De ser feliz... Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas e das maças. É preciso amor para poder pulsar É preciso paz para poder seguir É preciso chuva para florir Sinto que seguir a vida seja simplesmente Conhecer a marcha ir tocando em frente. Cada um de nós compõe a sua própria historia E cada ser em si carrega o dom de ser capaz De ser feliz Além Alma (Uma Grama Depois), de Paulo Leminski Meu coração lá de longe faz sinal que quer voltar. Já no peito trago em bronze: NÃO TEM VAGA NEM LUGAR. Pra que me serve um negócio que não cessa de bater? Mais parece um relógio que acaba de enlouquecer. Pra que é que eu quero quem chora, se estou tão bem assim, e o vazio que vai lá fora cai macio dentro de mim? Poemas de Paulo Leminski HAI Eis que nasce completo e, ao morrer, morre germe, o desejo, analfabeto, de saber como reger-me ah, saber como me ajeito para que eu seja quem fui, eis o que nasce perfeito e, ao crescer, diminui. KAI Mínimo templo para um deus pequeno, aqui vos guarda, em vez da dor que peno, meu extremo anjo de vanguarda. De que máscara se gaba sua lástima, de que vaga se vangloria sua história, saiba quem saiba. A mim me basta a sombra que se deixa, o corpo que se afasta.

Beijos espalhados no cinema e na música

Jueves 12 de junio de 2008

Kiss, baccio, beso, baiser, patselui... em qualquer idioma o beijo é uma forma de contato entre pessoas. Na literatura, na música, nas novelas de rádio e tevê, no cinema, nas artes plásticas e nos quadrinhos beijar é fundamental. Beijar é uma arte e Hollywood sempre soube disso. Burt Lancaster e Deborah Kerr rolam na praia em “A Um Passo da Eternidade” (1953), ajudando a desmoralizar o Código Hays, que não comportava esse tipo de exibição da luxúria. Os beijos ardentes de Rhett Butler (Clark Gable) e Scarlett O´Hara (Vivien Leigh) em “E o Vento Levou...” continuam na memória de muitos cinéfilos. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, a impetuosa duplas romântica de “Casablanca” tem quatro seqüências de beijos trocados pelo seu melodramático casal de obstinados. Da fantasia do cinema para a realidade da vida, Elizabeth Taylor e Richard Burton selam na cena de “Cleópatra” o adultério que abalou o começo dos anos 60. E Henry Fonda e Katharine Hepbum trocam beijo da terceira idade em “Num Lago Dourado” (1981). Inocentes, ilícito, desesperados, ternos, apaixonados: na história do cinema, como na vida, os beijos sempre foram tudo isso. Representam a comunicação e o amor. Se todas as manifestações artísticas se apropriam do beijo não seriam o cinema que prescindiria dele. Na verdade, os melhores beijos do cinema são aqueles que trocamos no escurinho da sala de projeção. O grande mérito de Hollywood nessa história foi tornar o beijo público e notório, introduzindo isso no inconsciente coletivo. O primeiro beijo do cinema aconteceu há mais de 100 anos, num curta-metragem, “A Viúva Jones”, de 1896. A sensualidade tórrida da cena vivida por May Irvin e John C. Rice chocou a sociedade americana na época. Não demorou e surgiu a censura. Depois de alguns anos, foram fixados limites “razoáveis” para as cenas “bestiais e indecentes”. Para a moral e os bons costumes, um beijo não deveria ocupar mais de 2,15mm de filme (em torno de três segundos), desde o sorriso até a separação final. É vapt vupt! O beijo mais longo no cinema é de 1940. Durou 185 segundos e foi compartilhado por Jane Wyman e Regis Toomey no filme “You´re in the Army Now”. Quem lembra do belo “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, sobre um menino fascinado pela magia do cinema. Antes das sessões ao público, o padre fazia a censura, cortando cenas que ele acha serem desprovidas de pudor. Isso sempre afetou as sessões, pois bem na hora daquele esperado beijo ardente, a cena é cortada para a seguinte, causando um furor entre os espectadores. Foi em uma dessas sessões de corte que o garoto Toto, o coroinha do padre, que sempre freqüentava o cinema escondido dele, conheceu o projecionista do cinema, Alfredo. Assim, começou a amizade entre os dois. Um beijo é só um beijo: uma das coisas fundamentais da vida. É o que dizia, em 1942, a letra de “As time goes by”, a famosa canção que embalava o romance de Rick (Bogart) e Ilsa (Bergman) no filme “Casablanca”.Na música o rei do rock, Elvis Presley queria ser beijado rápido em “Kiss Me Quick”. Os Beatles encantaram o mundo pedindo “Feche os olhos quando eu te beijo” (All My Loving), enquanto o guitarrista Jimni Hendrix incendiava platéias em delírio e pedia licença para beijar o céu (Purple Haze). “Besame mucho”, diz a canção argentina. “Beija eu”, canta Marisa Monte. “Ele me deu um beijo na boca”, interpreta Caetano Veloso. Os compositores não se cansam de cantar as maravilhas que o encontro dos lábios provocam.Roberto Carlos, na época da Jovem Guarda, cantou o barulho do sarro que tirava com ela no cinema em “Splish Splash”. De Noel Rosa e Vadico tem a composição “Quanto Beijos”. “Molha tua boca na minha boca/tua boca é meu doce meu sal/mas quem sou eu nessa vida tão louca/mais um palhaço no seu Carnaval”. É o canto de Tom Jobim na trilha sonora de “Gabriela, o filme”. Prince falava das experiências de um beijo em “Kiss”. Rita Lee chama por um “Doce Vampiro” (“mas nada disso importa/vou abrir a porta/pra você entrar/beija minha boca/até me matar de amor”). Bethânia canta, de Waldir Rocha, “meu Amor quando me beija/sinto o mundo revirar/vejo o céu aqui na terra/e a terra no ar” (“Lábios de Mel”). Caetano Veloso canta o beijo de muitas maneiras. “Em grandes beijos de amor”, em “Alegria, Alegria”; como um presente em “Menino do Rio” (“tome essa canção como um beijo”); e absolutamente político em “Ele me deu um Beijo na Boca”: “Era um momento sem medo e sem desejo/ele me deu um beijo na boca/e eu correspondi àquele beijo”. Marina Lima canta “Naturalmente ele me beija/e me põe literalmente louca/sob o sol, ah! E esse brilho no teu dorso/suor, cristal, gotas no seu rosto/fogo e sal nas curvas do teu corpo/é demais” (“Literalmente Louca”). “Foi sem querer que eu beijei a sua boca, menina tão louca, eu quero te beijar, beijo na boca, seu corpo no meu, suado, tem sabor de pecado, com jeito de bem-me-quer” é a letra de “Beijo na Boca” de João Guimarães e George Dias para o carnaval baiano. Existem outros beijos espalhados pela música como “Beijo Partido” (Milton Nascimento), “Nos Beijamos Demais” (Marina), “Lábios que Beijei” (Orlando Silva), “Aquele Beijo que te dei” (Roberto Carlos), “Eu Também Quero Beijar” (Pepeu Gomes), “Beijo Exagerado” (Mutantes), “Beijo Moreno” (Raimundo Sodré) e muitos outros. Todos resgatam emoção e o sabor de um momento único.

Ninguém perde a chance de beijar

Miércoles 11 de junio de 2008

O beijo é um dos grandes prazeres da vida e ninguém perde a chance de beijar. Cada pessoa gosta de um tipo de carinho, mas uma coisa é certa: todo mundo gosta de beijo. Tocar com os lábios alguém, às vezes fazendo uma leve sucção, é o que chamam de beijo, essa é sua manifestação mais singela. Existem muitas variações sobre esse tema. Ingênuas, castas, libidinosas, sensuais, atrevidas, pouco importa. O importante é beijar, e nada como um beijo após o outro. Para uns encurta a vida, outros acham que a prolonga. A verdade, segundo a pesquisadora francesa Martine Mourier, num beijo são acionados 17 músculos. E caso o beijo traga a volúpia da paixão, esse número sobe para 29, transmitindo 250 bactérias, nove miligramas de água, sete decigramas de albumina e mais uma gota de sais minerais, isso sem falar que os batimentos cardíacos podem duplicar de 75 para 150 pulsações por minuto. Para muitas sexólogas, a qualidade do beijo é fundamental para o sucesso de uma relação amorosa. As mulheres escolhem um bom parceiro sexual pela boca, pelo beijo. Pode-se contrair caxumba, tuberculose, herpes, sífilis, além de um duradouro caso de amor. Foi com um beijo que o príncipe fez viver Bela Adormecida. Walt Disney levou o beijo deles para o cinema e os dois estão em cartaz pelo menos há 60 anos, felizes para sempre. Segundo o antropólogo inglês Desmond Morris, a origem do beijo estaria na amamentação e no hábito – encontrado ainda hoje em algumas tribos selvagens – de passar o alimento sólido, amolecido da boca da mãe para a do filho. Ao longo do tempo, o beijo ganhou muitos sentidos. Beijar é basicamente um ato de reafirmação na vida, na felicidade, é um símbolo de vitória. Mas, nem sempre é assim. Judas traiu Cristo com um beijo. Quando um mafioso beija outro é sinal de condenação. Beijo na lona é sinônimo de nocaute. E um beijo de língua pode iniciar uma relação em cadeia capaz de fazer explodir o mais doce e tímido dos amantes. O beijo erótico, profundo, e suas carícias de língua, como conhecemos hoje, é fenômeno mais recente. Na Grécia Antiga, era dado aos escravos o direito de beijar o solo. À medida que ocupasse postos superiores na hierarquia social, podiam beijar joelhos, mão e peitos dos respectivos senhores. Hoje, tudo acontece ao contrário. O papa beija o solo de todos os países que visita e os cardeais beijam os pés dos mendigos. Uma das primeiras representações artísticas do beijo está nas esculturas e murais do templo de Khajuraho, na Índia, feitos há 4.500 anos. É também na Índia o mais completo tratado sexual do Oriente, Kama Sutra, do século IV, que dedica todo um capítulo à arte de beijar. No puritano cinema indiano, porém, é tudo diferente: o beijo só foi aparecer, tímido, no filme “A Casa e o Mundo”, de 1984, de Satyajit Ray. Os esquimós se beijam com a ponta do nariz, numa forma de cumprimento. O olfato, nesses beijos, vale mais que o paladar, e os olhos bem abertos são uma preocupação indispensável para quem mora numa região tão inóspita. Para os povos primitivos, o beijo na face é justamente para conhecer o odor do outro. Pelo cheiro, identifica-se a tribo (inimiga ou não) do indivíduo. Pelas mesmas razões, os mongóis esfregam o nariz na testa ou no queixo do rosto alheio. Os japoneses também não têm o boca-a-boca entre os principais esportes da ilha. Quando a famosa escultura de Rodin, O Beijo foi exposta num museu de Tóquio, foi logo coberta para evitar escândalo. Para os chineses, o pudor extremo se relaciona com o beijo na boca, considerado como fazendo parte do ato sexual e, portanto, impensável em público. Esta concepção do beijo deu origem a um longo mal-entendido. Ao chegarem à China os ocidentais concluíram falsamente que os chineses nunca se beijavam. Por sua vez os chineses, vendo as ocidentais beijarem homens em público, acharam que todas aquelas mulheres eram prostitutas. Os russos se beijam na boca. Isso é expressão de poder, fé e cultura. Existem outros povos, no entanto,m que não beijam. Entre eles, andamanenses, vietnamistas, somalinos, cewas, serionos e os habitantes de Okinawa. Na Abissínia, atual Etiópia, os homens beijam o chão que a amada pisa. Os muçulmanos beijam a própria mão antes de tocar a testa da mulher. Na Ásia e em algumas tribos negras, o beijo consiste em cócegas na orelha direita. Antigamente, assim como outras práticas amorosas, o beijo foi muito censurado, e muitos casais mais avançados foram até presos por se beijarem em público. Hoje, as coisas mudaram e já se beija nas ruas, nas praças, nas praias em plena luz do dia. O beijo geralmente é o termômetro do jogo amoroso, dependendo dele as coisas podem tomar um rumo ou outro. É muito difícil de saber o tipo de beijo ideal. Cada pessoa tem suas preferências particulares. Beijo é como impressão digital, cada um tem o seu.Uns gostam de beijos melados, outros, de beijos lambidos, outros mordiscados. Há os que preferem longos beijos cinematográficos e os que gostam de beijos curtos e breves. Há pessoas que adoram beijos roubados (os escondidos), outras, beijo impetuoso, beijo compromisso (beijou casou), beijo perigoso (com sabor de crime), beijo canibal (aquele que deixa marcas), o profundo (com intervenção da língua), o escandaloso (conforme padrão de cada época), apaixonado (de fechar os olhos e ver estrelas), além do beijo de cada país. No beijo à brasileira, nessa arte somos especialistas e temos uma série de tipos que vocês mesmo podem relembrar à vontade.

O amor segundo 19 filósofos (2)

Martes 10 de junio de 2008

Antonio Rosmini (o amor é a presença de Deus no mundo) informa que é do amor a Deus que brota o amor ao próximo, e é ainda este amor que constitui o fundamento de toda a ética. Segundo o filósofo alemão Ludwig Feuerbach (não amar a Deus para amar o homem), a divindade é uma invenção do ser humano. Uma vez reconhecendo o caráter alienante, ilusório e enganoso da fé religiosa, o amor, para ele, é uma realidade apenas natural. Segundo o pensador dinamarquês Soeren Kierkegaard (o amor de Deus fundamenta e edifica o amor humano) existe o amor divino e amores humanos. Somente o amor de Deus e por deus eleva as relações interpessoais acima dos sentimentos puramente humanos para projetá-los na esfera da caridade verdadeira. No pensamento do bávaro Max Scheler (Deus é o fundamento do amor) o amor encontra a sua mais evidente justificação e garantia na presença amante de Deus, que escolheu, primeiro, justamente o amor para revelar-se aos seres humanos. Na filosofia do austríaco Martin Buber (o amor reconhece o outro no diálogo) o amor consiste no diálogo entre Deus e o homem, dialoga entre o ser humano e o seu semelhante. No pensamento do filósofo Jacques Maritain (amor, amizade, caridade) o amor divino e o amor humano se implicam e se integram mutuamente. A filósofa e santa Edith Stein (o amor eleva à perfeição) doou-se a Deus por amor, amarrou-se a Cristo com um vínculo indissolúvel de amor, que a tornou, por sua vez, capaz de amar, dando-lhe a condição de viver uma autêntica e fecunda maternidade infantil baseado no amor e alimentada pelo amor. Para o pensador parisiense Jean-Paul Sartre (o amor é conflito incurável), o amor é caracterizado por uma falta de autenticidade constitutiva, porque todas as relações humanas carecem, afinal, de autenticidade, e por isso são destinadas ao fracasso e à derrota. Já o pensador francês de origem lituana Emanuel Lévinas (o amor entre necessidade e solidão, alteridade e transcendência) faz referências ao amor fraterno universal e à solidariedade com o próximo como a duas realidades que torna possível a própria interioridade do sujeito. Assim o amor é situado como que no centro de um triângulo, cujas vértices são constituídas pelo rosto do outro, pela responsabilidade que cada indivíduo deve alimentar para com os próprios semelhantes e pela justiça que, em, certo sentido, torna efetiva o amor e a responsabilidade.

O amor segundo 19 filósofos (1)

Lunes 9 de junio de 2008

O sentimento que dá forma e alma ao mundo, e que ao longo dos séculos inspirou os pensamentos e as obras dos homens, desde a arte até os domínios da espiritualidade, da ciência e da poesia. Assim é o amor com suas contradições, luzes e sonhos, mas sobretudo potência, esperança e vida. E nem mesmo a filosofia conseguiu escapar ao fascínio arcano deste sentimento. Dezenove filósofos teorizaram sobre o amor no livro “O amor segundo os filósofos”. Uns sustentaram a existência do amor como valor positivo, humano, outros condenou o amor a uma realidade ilusória, e outros numa dimensão divina. O livro, do professor Maurizio Schoepflin, foi editado pela Editora da Universidade do Sagrado Coração (Edusc). Na concepção do filósofo Ateniense Platão (o amor ao bem e à beleza) o amor liberta o ser humano e o leva à verdade. Assim, o amor platônico lança uma ponte entre o universo sensível e o universo puramente inteligível, entre o corpóreo e o espiritual, entre o relativo e o Absoluto, entre o contingente e o necessário, entre o particular e o universal. Já o filósofo egípcio Plotino (O amor é desejo inesgotável), o amor purifica e eleva o ser humano. Produz efeitos catárticos de importância fundamental, sem os quais o caminho da conversão e do retorno fica fechado para a alma. No pensamento do africano Santo Agostinho (o amor é tudo) o amor é o nexo que une as Pessoas divinas. Somente o amor é capaz de explicar a vida da alma e a sua possibilidade de se elevar ao conhecimento unitivo de Deus. Segundo Boaventura de Bagnoregio (o amor é a verdadeira sabedoria), a força que dá ao ser humano a capacidade de elevar-se a Deus é o amor. Muitos mais que o esforço intelectual, é o amor que torna possível uma verdadeira aproximação a Deus. O amor constitui a essência central da própria vida de Deus. Quando amamos, afirma Tomás de Aquino (amar a Deus para amar o próximo), amamos a Deus. Na concepção de Marsílio Ficino (o amor é furor divino) o amor tem uma dimensão cósmica e dá à alma humana a capacidade de uni-se a deus. Na filosofia de Baruch Spinoza (o amor é intelectual e gera alegria) o amor é o pleno conhecimento da verdade que faz o ser humano totalmente feliz. Na concepção do pensador de Genebra, Jean-Jacques Rousseau (o amor não admite corações) o amor é filho da natureza e da liberdade. Para ele, o ser humano nasce bom e se perverte por causa da vida social e do desenvolvimento cultural. A civilização e a cultura tornaram os seres humanos egoístas e violentos, gananciosos e desordenados. Para o filósofo alemão Friedrich Schleiermacher (o sentido sagrado do amor) o amor une o finito ao infinito. O amor, interpretado segundo uma perspectiva religiosa e sacralizante, torna-se o centro da gravidade que atrai e unifica não só a própria religião e arte, mas também a educação e a moralidade. O pensamento de Arthur Schopenhauer (o amor desejo e o amor compaixão) é marcado por um profundo pessimismo, baseado na convicção de que o único motor de toda a realidade é uma vontade cega, absurda e irracional de viver que impulsiona todo o universo e cada ser vivo a desejar algo que, tão logo é obtido, torna-se motivo de insatisfação. Assim o amor é poderoso e sabe enganar o ser humano, consegue iludi-lo, prometendo-lhe uma felicidade que jamais poderá se realizar.

Música& Poesia

Viernes 6 de junio de 2008

Inclassificáveis (Arnaldo Antunes) Que preto, que branco, que índio o quê? que branco, que índio, que preto o quê? que índio, que preto, que branco o quê? que preto branco índio o quê? branco índio preto o quê? índio preto branco o quê? aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes orientupis orientupis ameriquítalos luso nipo caboclos orientupis orientupis iberibárbaros indo ciganagôs somos o que somos inclassificáveis não tem um, tem dois, não tem dois, tem três, não tem lei, tem leis, não tem vez, tem vezes, não tem deus, tem deuses, não há sol a sós aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos tapuias tupinamboclos americarataís yorubárbaros. somos o que somos inclassificáveis que preto, que branco, que índio o quê? que branco, que índio, que preto o quê? que índio, que preto, que branco o quê? não tem um, tem dois, não tem dois, tem três, não tem lei, tem leis, não tem vez, tem vezes, não tem deus, tem deuses, não tem cor, tem cores, não há sol a sós egipciganos tupinamboclos yorubárbaros carataís caribocarijós orientapuias mamemulatos tropicaburés chibarrosados mesticigenados oxigenados debaixo do sol . Poema do lavrador de palavras aos políticos (Pedro Barroso) Não me perguntem coisas daquelas que eu não creia não me perguntem coisas daquelas que não sei remeto para os senhores as decisões do mundo tais co